segunda-feira, 16 de agosto de 2010

"A volta dos que não foram"

"Que rolem as pedras do sepulcro LOSER. Voltemos, grandes amigos de perdas. É, pois, que levantado do berço em que jazia, trago um novo estilo mais para dentro. Meto-me. Ainda me sobram as paixões, caros leitores; não choreis, amadas leitoras, pelo velório do romanceiro, ele ainda viverá, seguindo, sim, um fluxo diferente: o da (in)consciência. O verme da paixão ainda parasita meu ser; em estado crônico. Agora aloja o território fantástico da mente. Sendo assim, passo a acrescentar o “INTROSPECTO” ao nome de romanceiro, o que poucos de vocês deixarão de compreender. Livremo-nos de prólogos."

Violeta

Falta-lhe a bunda; cu todos temos. Beleza fria, cairia bem com um café quente com metade de açúcar; doçura. Um biscoito supriria a falta da gostosura que normalmente alimenta os homens, tem ela nada de mais, é tudo fruto de reflexão. Há dias que vinha me perturbando sem sequer fazer nada, respirava, é certo, talvez isso me indignava. Não que me faltasse o ar, mesmo que não, só me perdi em reflexões pelo tesão delas mesmas. Pinto murcho, cu folgado: estado normal.
Acostumei os leitores com o brilho da amada, perdão: hoje falta a amada e, principalmente mais, o brilho. É um lado da vida a se descobrir, o dos interesses pelo mistério inventado. Inventa-se mistério em tudo, até mesmo na relação entre cor e mulher; compreende-se?
Trazia roxo, cor de fama não muito boa, muitos se pavorizam, eu inclusive já vi que não me dei muito bem com ele. Nela, a mulher, o roxo, como lhe é costumeiro, não brilhou e mesmo até não coloriu, fugindo a seu encargo na qualidade de cor. Manchou.
(Tiro que passa pela culatra e derruba o já cadáver na parede branca; primeira menstruação; nódoa de frutas; beijo de batom vermelho no colarinho; taça de vinho derrubada na toalha de mesa; hemoptise; vômito negro; teste Rorschach). Manchou a mulher. Nem se percebeu da carga que pôs sobre si. Logo me deparei na densa harmonia entre cor e corpo; três instantes e pareceram uma só coisa: eram uma garota de roxo. Eclipse: sol, lua, garota, roxo. Eu vulnerável me deixei levar, ceguei-me e logo tateava um mundo sem lógica cheio de fantasias todas minhas.
(Cemitério à tarde, vazio, as pessoas ainda estavam morrendo, nada de sossego para elas. Entre os túmulos, morta paz. Eu lia os nomes e os epitáfios, tentando pensar num que pudesse ser o meu um dia, não de tarde como aquele, mas escuro, sombrio, ventos. Um farfalhar me deteve, não estava mais sozinho. Entre os túmulos nobres de mármore, passava a garota de roxo, como quem dança uma valsa corrida, sem parceiro. Eu estiquei minha mão em sua direção; doeu-me, escorreguei até o chão encostando nas gavetas onde jazia algum morto. Pus me de joelhos, recuperei o fôlego, respirando ao som do balançar do vestido da jovem dama de roxo. Levantado, passei a persegui-la andando a passo rápido, sem correr. Um momento depois de a perder de vista, fui surpreendido pelas costas: tive de susto seu corpo a um palmo do meu).
Consciente, numa segunda espreitada àquela mulher, lembrei-me do meu dia de morrer, do meu velório. Estava seduzido. Lha admirei roxa, descobri mais sobre ela, sua cor era, na verdade, seu reflexo opaco sujo distorcido perdido de uma mente insana. Mistério revelado.

- Olá, tudo bem contigo? – disse a mulher a mim.

Seduziu-me seu velório.
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Andrius, o romanceiro introspecto.
"A fantasia do café que havia esfriado"