Minhas crônicas têm marcas de sangue.
Descobri isso, não metalinguisticamente, mas ainda vivendo, analisando os fatos que circundam a vida do “cronista”, se é que me posso qualificar assim. Essa reflexão surgiu no mundo real e foi voltar-se para o escrito, para o dito imortalizado. Revelou-se como a própria arte do poeta, que enxerga o Belo na natureza e o transpõe poeticamente para o papel. Em muitos desses artistas já vi a obra que fala sobre o obrar, sobre o feitio; textos que os sabidos taxam de metapoéticos. Até mesmo eu já me atrevi a discursar sobre isso, porém hoje procuro mostrar aqui o que passei, estabelecer uma relação indigna entre vida e literatura: notei certa maldade daquela sobre esta.
Notei que minhas crônicas têm marcas de sangue.
Procurei, quase em todos os momentos, retratar uma visão de mundo que, embora velha e conhecida, pudesse causar certo estranhamento, talvez pelo arcaísmo que ela carrega. Pus-me à luta, principalmente, para enxergar, num mundo de pessoas distraídas e sem tempo, as belezas do momento. Meu romantismo empenhava-se - e se empenha – em fruir as paixões, em gozar colo e carinho da amada, em saborear o fruto melhor e não proibido: o amor. As horas que me colocava a escrever eram Sublimações, nas quais viajava em imaginação para os cimos onde me deliciava dos mais puros vinhos e beijos já experimentados; era nessa quimera que residiam Ser e Razão. Ao fim da jornada, sempre tinha um texto lírico e emotivo, brotado da imagem da amada.
As marcas de sangue, insisto, foram trazidas pelo fúnebre Cotidiano. Empírico, grosseiro e estúpido, ele cuspiu na minha cara, tomou-me a honra de romancista e tocou nos meus princípios. Negou-me o pressuposto! Dizia-me, “em quais lugares vês amor, jovem iludido? Que sentimentos há, se perdeu-se o sentir-a-vida? Amor, paz e virtude hoje são sexo, vida boa e dinheiro (respectivamente) – sim, o último engloba todos, uma virtude! não?” O abutre fez-me feder carniça, feriu-me com seu bico de diamante.
Minhas crônicas têm marca de sangue.
Aconteceu que nesta minha vida eu me consumi em exaltar a amada, em demonstrar meu amor, em engrandecer sua beleza, em compará-la à natureza; triste romântico. E a minha bela recompensou-me com um surto, com falsas cartas de amor, com carinhos de dó e não paixão. De dia eu a vi sair, sem se despedir, sem falar o que houve, sem explicações, sem beijos de adeus. Neste momento a adaga da injustiça perfurou meu peito, abriu-me o baú da vitalidade: é injusto um homem amar!
Recusado pelo mundo, sozinho e sem amparo algum me expus ao chão, aguardando pela morte. O meu grito já era incapaz, a Razão sumia-me pelo ventre, os olhos somente as traças enxergavam. Num último suspiro tateei o bloco de notas, rasguei uma folha e juntei-a ao ferimento, estanquei-me a alma.
Sim, minhas crônicas têm marcas de sangue.
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"Acordei e o café havia esfriado"
Andrius, o Romanceiro