Um dia desses, eu estava passeando pelo centro quando resolvi entrar em um shopping para ver livros que deviam ser adquiridos para a Faculdade. Eis que em uma das lojas achei DVD’s em promoção. Tinha acabado de receber e não pensei duas vezes. Dentre os diversos títulos disponíveis adquiri “As Três Cores” de Krzysztof Kieslowski, “O Auto da Compadecida” de Guel Arraes, “Tomates Verdes Fritos” (não sei o diretor) e o filme “A Rainha” de Stephen Frears - dentre esses o que menos me chamou a atenção e o primeiro que assisti ao chegar em casa. Ao término da sessão eu estava impressionado, e tudo aquilo que havia me escapado à primeira vez, encheu a tela da segunda. Como não perceber nessa produção todas as qualidades que permitem a um filme o status de “fascinante”?
Após a morte da Princesa Daiana em 1997, tristeza e luto tomam conta da Inglaterra e do mundo. O silêncio de Elizabeth II que se recusa a prestar qualquer tipo de declaração a respeito da morte da “Princesa do Povo”, também mãe dos seus netos Harry e William, aumenta a cobrança dos ingleses que frente à indiferença da Rainha, passam a questionar a serventia da monarquia britânica. O filme se desenrola em meio a uma atmosfera envolvente onde a personagem principal é obrigada a desempenhar não só o papel de monarca mais importante da Europa, mas também de mãe, avó e conselheira do recém eleito Primeiro Ministro Tony Blair.
Dame Hellen Mirren, atriz no papel principal, já havia feito algumas interpretações interessantes como em “Gosford Park” onde fez papel de uma mãe que mata para proteger o filho de uma acusação de morte e “Calendar Girls” onde topou, com 57 anos, tirar a roupa para contar a história real de um grupo de mulheres mais velhas, que fizeram um calendário. Mas sua maior conquista foi mesmo o Oscar merecido pela memorável atuação em “A Rainha”. Atuação esta que sem dúvida alguma é uma das melhores dos últimos 20 anos, não só pela semelhança com a personagem real, mas também pela sutileza dos modos com que retrata essa personagem.
O diretor Stephen Frears, mesmo de “Alta Fidelidade” e “Mrs. Anderson Apresenta” cria todo um ambiente e trabalha mais uma vez com o histórico como já havia feito anteriormente em “Ligações Perigosas”. “A Rainha” apresenta uma montagem interessante: além de mostrar fotos de Daiana, ainda intercala a ficção com documentos históricos, como por exemplo as imagens dos telejornais da época anunciando a morte da Princesa ou as declarações de pessoas que deixavam flores na frente do Palácio de Buckinham, além da regravação do que foi o famoso depoimento da Rainha Elizabeth II. O assunto não é nada fácil de ser tratado justamente pela polêmica que o envolve (vale lembrar que até hoje existem mistérios que rondam a morte da Princesa de Gales além de algumas pessoas que acreditam na hipótese de assassinato cometido por Charles), e poderia até cair no vulgar. Poderia, mas acontece o contrário...temos diante de nós uma só enchente de originalidade.
Os únicos pecados ficam por conta de James Cromwell que apesar de bom ator parece meio mecânico interpretando Príncipe Phillip marido de Elizabeth II e Alex Jennings que simplesmente não explora uma personagem muito importante na situação. Príncipe Charles, marido de Daiana. Michael Sheen, que está impecável e em harmonia das mais raras com Hellen Mirren, também poderia ganhar mais tempo, mas isso é até compreensível já que Mirren e sua atuação acachapante tomam conta do filme inteiro.
O filme é ótimo, só coisas boas podem ser ditas desta que a melhor atuação da carreira de uma das melhores atrizes vivas, e de Stephen Frears em seu melhor momento em Hollywood. O filme vale a pena ser visto por mostrar o outro ângulo da situação (daí a surpresa que o filme causa no espectador), uma outra Elizabeth mais mulher e mais humana, também por colocar de forma brilhante a emoção em conflito com o poder e razão; o filme questiona qual a medida de um e de outro nas relações humanas e nas relações do humano com o poder. Até que ponto é possível esconder nossa personalidade, nossa marca em nossas ações e idéias? Demais para um filme como esses? Não sei, mas alguns até colocam como questão central do filme a dificuldade de escrever. Outros, como é o caso de alguns lingüistas diletante, ainda juram que o filme problematiza a questão de Educação no Brasil que realmente anda muito precária.
Muito bom!!!
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Mestre Belazarte
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