Lembranças
Por muito tempo perdurou-se a idéia de que os poetas, romancistas e artistas em geral se mantinham sob feitiços de gênios que lhes manifestava o bálsamo da inspiração. É o vinho que Baco mijou e que abria a tampa do âmago do ser, fluidava-lhe a alma; por isso muitos escreveram, interpretaram, versaram, cantaram, pintaram e criaram. Os realistas definharam esse pensamento e chamaram o artista de profissional, deram-lhe técnica. Não obstante, eu ainda prefiro crer que somos bêbados – pelo menos eu sou -, e que experimentamos o vinho devaneador, porém, somos profissionais nisso.
Como muitos que são os artesãos da arte, cada qual procura pra si o seu licor; são variados. Neste boteco que D-us me deu, acabei que por encontrar uma bebida nobre: brisa de mar! Como bom vinho, suave, cálida e sublimante, ela me lavou, invadiu meu corpo e tocou o seio de minha alma. Embriaguei-me.
Ébrio, agora sim, pude enxergar o que me de belo passava, o que antes, despercebido e entre os prédios da cidade, ocultava-se de mim. Defronte ao mar, ouvi segredos que soavam, vindos do horizonte, e, ali, na praia, quebravam, como ondas.
Inconscientemente consciente notei que paisagens belas se ofereciam a mim. Hoje, de ressaca e vomitando as tripas no papel, não posso deixar de descrevê-las, belas, donzelas, elas...elas.
Com a primeira, a praia não se queixava da ausência do Sol, quiçá eu, que sem óculos pra proteger meus olhos do brilho da beleza daquela mulher, metia-me a encará-la, enfrentando eclipse a olho nu. De longe eu sentia seu cheiro doce que me dava água na boca, tremia-me a as pernas e me fazia suar. Seu bailar tomava-me todos os sentidos: Manchou meu inconsciente.
Na tarde seguinte, eu, beira-mar, esperava por essa primeira, mas descobri uma segunda. Reflexivo e caminhante, não pude deixar de notar a brincadeira de bola do garotinho com uma moça. Atrai-me pela inocência, não do pequeno que comia areia e sequer falava, mas daquela mulher que, encantadora, seduzia-me involuntariamente. Por minutos estaquei ali para observá-la, para fruí-la com o olhar, e, nesse tempo, permiti-me vislumbrar o seu desfile em direção às águas, em busca da bola ou para enxaguar as mãos. Deliciei-me o possível e fui embora, certo de que nunca mais a veria. Já estava satisfeito.
Para essa mesma noite sobrou-me outra, de olhos firmes e misteriosos, no mínimo intrigantes: extorquiram-me. Inescrupulosos, me seduziram pra cuspir “Não!” na minha cara. Ainda assim, tratei de sugá-los até o último instante, por desejo, por ânsia. Belos e malditos custaram-me uma noite de sonhos e essas linhas fadigadas.
Além disso tudo, tive ainda a oportunidade de vigiar um pôr-do-sol, sobre o qual já tinham me advertido da sua grandiosidade. Fotografada, essa única paisagem, das quatro, que me cedeu colo, hoje mereceu um poema, diferente das outras, que já me são crônicas.
Acordei e o café havia esfriado.
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Andrius, o Romanceiro
Andrius, o Romanceiro
foda!
ResponderExcluirVery Good,
ResponderExcluirMuito boa a maneira que vc usa as palavras para descrever situações que seriam na maiorias das vezes simples clichês.
PARABÉNS.
já disse: meu cronista preferido.
ResponderExcluirUm muito obrigado a todos.
ResponderExcluirEspero ter lhes propiciado uma boa viagem nessa leitura.
Camila, é uma honra, sabe!
Muito bom mesmo! Simplesmente ótimo!
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