Minha caminhada.
Sob a baixa luminosidade da sala é que hoje me ponho a rabiscar essas linhas. A chuva lá fora é instável, o ar me parece fresco e, sobretudo, o café não me falta. Aparentemente um clima folgado, daqueles das tardes de um dia de folga, de feriado sem importância; atmosfera de cidade do campo. Envolta por isso, minha mente, que merecia descanso, prefere carregar-se, viajar a trabalho por entre as memórias de um baú pequeno, porém entulhado de coisas.
Não é dia de mudança de ano, de aniversário, de falecimento, ou qualquer uma dessas datas em que, por praxe, paramos pra fazer planos, ver o quanto estamos velhos, pensar na vida. Assim como fruta fora de estação, presente sem motivo me são esses pensamentos. Sonho com eles num romance algum dia, sujando as páginas de um livro, sendo folheados no ônibus, guardados por sacolas, amontoados na cabeceira da cama de uma linda garota desconhecida. Imagino-os tirando lágrimas dos olhos da bela moça emotiva e insensata, que toma seu tempo lendo o que hoje são pra mim imagens mentais, abstratas e sem nitidez. Será minha vida um romance?
Sobretudo, um dia, sonhei. Era um piá preto vestido a trapos que subia em árvores, não soltava pipa, chutava bola, cuspia no chão e amava os avôs. Não tinha muito com o que se preocupar, aliás, quanto menos pensasse na vida, menos triste seria; simples, era só viver. Talvez por isso, hoje, eu reflita tanto, agora que tenho com o que me comprometer, pude tomar posse daquelas lembranças e, independente, fazer delas o que quiser: fiz-las marcas, traços que corroborassem pra configurar o que sou.
Essas marcas são nosso passado. Para alguns, em concordância com esse nome, é simplesmente o que se passou e que logo se apagou: são homens e mulheres sem história e, muito mais, sem romance. Esses não sabem andar na praia.
Alguns dias atrás, caminhando pela areia, ladeado pelo oceano, sentia-me bem. Sem garotas pra admirar – belas moças não acordam cedo – passei a cuidar meus passos. Logo notei as pegadas deixadas pelas pessoas que haviam já passado naquele caminho. Medidas exatas, formas singulares que, embora eu tentasse, não podia encaixar meu pé naquelas marcas: não eram minhas. Nem mesmo nas de meu pai cabiam os meus passos. Tomado pela descoberta parei e olhei para trás: observei que eu, também, deixava as minhas próprias impressões na areia. Elas marcavam minha trajetória, levavam-me a reconhecer o quanto tinha andado, por onde tinha passado: eram minha história. Imediatamente olhei para o lado e vislumbrei o mar com toda a sua imponência, sua magnitude; e os montes com suas grandiosidades e mistérios. Pronto! agora sim, tinha, ali, meu romance.
Acordei e o café havia esfriado.
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Andrius, o Romanceiro
Mais um conto do Romanceiro que me intriga. O legal é que um romance não precisa de nada meloso pra ser bom. E esse é "suave" pra ler... Acho que deu pra entender o que eu quis dizer "/
ResponderExcluirSabe que...lendo esses trechos escritos por nosso amigo ... percebo que tem grande relação com meu jeito Jovem Eder de ser também, não no todo, mas em várias passagens...
ResponderExcluirAndrius sempre escrevendo bem! E, como disse o Eder...também vejo um pouco do que penso no seu texto...Chega uma hora que a gente começa pensar na vida. Beijos.
ResponderExcluirImpressionante, suas crônicas parecem saídas da minha própria cabeça. Tirando, é claro, o fato de que você é um escritor muito mais competente. Quem sabe um dia eu consiga transformar minhas reflexões diárias em palavras tão bem como você; por ora, apenas aprecio. =D
ResponderExcluirÉ sempre bom te intrigar, Michelle.
ResponderExcluirJovem e Marlon, loseres sempre compartilham um bom espírito loser.
Ágata querida, pensar na vida é belo, só não vamos teorizá-la, perde-se a graça, o espontâneo!
Obrigado a todos pelos comentários
hum...gostei....ainda mais da simplicidade da escrita ...e achei um tanto quanto original o escritor tem uma identidade de escrita bem definida e própria parabéns andrius
ResponderExcluirTento ser simples, nem sempre consigo.
ResponderExcluirObrigado, Gabriel.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirHum...amei... simplesmente perfeito!!! Singelo, suave e bom.
ResponderExcluir"Os ventos e as ondas estão sempre do lado dos navegadores, mais competentes" Parabéns pela sua dedicação..continue sempre assim... escrevendo muito bem, com clareza e entusiasmo.
Andrius, interessante relação que você estabeleceu entre "memória" e "romance". Mais interessante é o seu apego pela idéia de passado. Sem dúvidas, a pequena reflexão que vc fez nessa sua crônica-pensamento revela um intuição batuta, por assim dizer: o romance que tenta entender o passado - seja olhando pras pegadas na areia, seja olhando pro bolinho mergulhado no chá, como em Proust - é um dos melhores caminhos para aquele que escreve e, sobretudo, para aquele que lê. Não é assim com São Bernardo, por exemplo?
ResponderExcluirSou suspeito para falar, mas adorei este! Muito original a forma de escrever, carregada de poesia. Mergulhei nas minhas próprias memórias, impulsionado pelo romance do escritor. Me identifiquei muito com esta crônica!
ResponderExcluirA poesia está nas coisas mais simples e improváveis e que às vezes nos passam despercebidas... Ter a sensibilidade de notar essas pequeninas nuances e a criatividade de registrá-las de uma maneira envolvente fazem um escritor, ao meu humilde ver.
PARABÉNS!