quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Visão/Ilusão de mundo

Sonho de uma noite de outono.

A mulher que eu amo sonhou comigo.
É nesse mundo irreal, mas verdadeiro, que me foi permitido estar ao lado dela, expressar meus sentimentos, tocá-la, ouvir sua voz em serenata. Lá, as folhas secas e amarelas dos ipês se prostravam aos dois amantes, o relógio detinha-se para ouvir os tic-tacs dos corações em chamas e as árvores tratavam de dar sombra aos cabelos daquela bela, que o vento insistia em chacoalhar.

Aquele amor, ali, era puro; conservador, mas desimpedido. O seu corpo se fazia todo meu, mas o que me interessavam eram suas palavras, seus cabelos entre meus dedos, o toque sutil dos lábios, o sentir fino da pele maltratada pelo frio intenso.

Corria-se pelas vielas, escondia-se atrás dos troncos, jogava-se aos braços em busca do calor do outro, que instigava a alma, que arfava o peito. Eu a tinha com um belo sentimento, mandava-lhe beijos, cantava-lhe melodias, declamava-lhe poemas; exaltava-a. Agarrados, caminhávamos em direção ao pôr-do-sol, chutando o ar, olhando os cães distraídos que pensavam na vida, recebendo a tarde com sentimento de esperança. Os que passavam por nós sequer imaginavam que ali estavam duas pessoas que escreviam um romance, que afirmavam a existência de D-us através de um amor sublime de toque celestial. Esses outros viviam somente, seguiam suas leis e preceitos, caminhavam da casa para o trabalho, passavam por aquele parque somente em busca de um atalho e suas ânsias eram de um banho quente e um café, talvez.

Isso porque o sonho não era deles, mas da mulher que eu amo, por quem eu suspiro todas as noites, em quem penso quando me ponho a escrever, minha eterna amante. Esta não sonha com as verdades do mundo, com as tramas da sociedade, mas somente se detém no seu romance, numa história de amor que eu escrevo pra ela e leio todas as noites antes de dormir, orando pra que minha imagem perturbe seus sonos e que, ao acordar, eu seja sua primeira lembrança.

Isso tudo faz parte de um mundo lindo que criei para suprir minhas necessidades de paixão, minhas carências. Nele as coisas somente me rodeiam, servem à minha vida; e lá meus braços folgam na proteção da amada. Eu a tenho com pureza e confiança, sem ressentimentos. É a minha utopia solidária, meu resgate emocional.

Entretanto, no mundo que criaram pra mim, tenho medo de amá-la, temor em expressar-me, ausenta-me a coragem. Se criaram esse mundo pra mim, esqueceram de fazerem-na minha; tal dádiva me escapou.

Os verdadeiros sonhos que me perturbam são a indiferença dela perante mim, seu desleixo com o meu coração, sua resignação. Ela escreve-me coisas que não entendo em bilhetes sujos, restos de papel, lixo presenteado. Qualquer ímpeto de meu instinto apaixonado é certamente impedido, meu amor é afogado e o sentimento consumido. Triste vaga vida, que me é dada cada dia e me tomada pela noite.

Mas enquanto ela sonhar e um papel pra rabiscar eu tiver, poderei tornar o mundo algo mais descompromissado, ter meu próprio parque com ruas cobertas de folhas secas e amarelas dos ipês, árvores com sombras, um sol para seguir, ela para sentir: poderei amar puramente.


Acordei e o café havia esfriado.

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Andrius, o Romanceiro

10 comentários:

  1. Essa é a minha preferida. E mostra muito vc meu querido otário! Orgulho de vc!
    beijãO
    ;*

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  2. Fui hipnotizada pela leitura. Por um momento me vi deitada sob o meu ipê amarelo, aquele que cobria o jardim da casa onde cresci na infância. E a minha amada, com quem eu brincava e rolava na grama, era aquele mesmo pedaço de vida: a criancessência (essência da infância, hahaha).
    Parecido com o que o eu lírico sente, às vezes tenho medo de buscá-la (a infância) novamente, com medo de não saber lidá-la ou vivê-la do mesmo modo como vivi. Mas você, como autêntico romanceiro, deve saber melhor do que ninguém que o amor deve ser cego para as barreiras.

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  3. Orra, muito bom Andrius :)
    Parabéns meeesmo!
    Saudades.
    Beijos

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  4. Lindo Andrius!
    Adorei a colocação e os detalhes.
    ah, e a utopía, lógico.

    Parabéns!
    E se escrever um livro, não esquece de me chamar pro lançamento, quero um autografado!

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  5. De todas as suas crônicas, essa foi a única que tive que reler pra captar a essência; se é que consegui. Mas este sonho me pareceu bem triste. Mas aquele lado bom da tristeza. Talvez por isso eu tenha gostado tanto.

    Aguardando a próxima. ;D

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  6. Nossa, gostei bastante, muito bom!

    A parte final então, está divina!

    Parabéns

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  7. Oie!

    Adorei o texto, muito bom!
    espero que tenham varios..

    beijos

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