terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sublimação

Devo resistir?

Não sabia se parava para escrever; embora estivesse experimentando muito do vinho fino que chamamos paixão, pensava jamais poder expressar o que sinto realmente. Sempre escrevo na tentativa de imortalizar meus momentos, sejam eles bons ou ruins, desde que sejam notados. Só escrevo sobre o que vejo de belo na vida, não belo, de bonito, mas sim belo de peculiar.

Creio que nada na vida seja tão peculiar, ou belo, quanto a paixão. Se me responde que o amor é, discordo, pois isso eu nem conheço e jamais vi alguém que tenha escrito sobre esse sentimento tão ideal. Escreveram, sim, sobre paixões, algumas até incessantes, eternas e estáveis. Pois é; talvez amor seja isso, uma estabilidade da paixão; não sei. Mas conceituar não é minha intenção; da paixão sou somente contemplador ou, talvez agora, participante.

Quebrei o ritmo do poema, da poesia da vida. Não consigo mais só viver, tenho de, todos os instantes, sonhar, porque idealismo é pensar nela, vê-la, senti-la sem contato, perceber sua presente ausência, que faz falta. Provei do vinho e gostei, porém ainda não me embriaguei: só me instiga o doce amargo sabor, que persiste, que incinera, que se impregnou em mim e me manchou. Como o sangue da caça no caçador, marca de honra, essa nódoa de paixão representa a honra de um romancista.

Pela amada não foi só à primeira vista que me apaixonei, foram em todos os olhares: nos primeiros e nos enésimos seguintes; olhares que me fizeram em alguns momentos erguer os óculos, e em outros fechar os olhos, para gozar da sublime sensação. Ah! o melhor da vida são as emoções, essas misturas de prazeres carnais e celestiais: Ela é linda! Em uma paisagem bucólica, seus olhos seriam o horizonte, e sua boca as montanhas. Pois então quero uma casa nas montanhas, lá no cimo, onde a pureza é vizinha. Em um céu, seus olhos seriam estrelas e sua boca a lua. Pois então, desejo tocar a lua em um céu sem estrelas: um beijo.

Já desde um tempo que sonho, que alterno minha existência entre realidade e sublimidade. Estou na entrada de um beco sem saída, e perder-se ali é tão fácil quanto não se encontrar no Universo.

Esse céu de ilusão me consome, atrai-me, impele-me. Porém ainda não tenho passaporte, somente aguardo. Talvez a ilegalidade seja a única opção.

Acordei, e o café esfriou.

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Andrius, O Romanceiro.

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